quinta-feira, 7 de julho de 2011

Consciência

Não me venha falar de produtividade, consciência. Logo você quem mais me conhece. Primeira a apontar o dedo para a preguiça, a procrastinação e o olhar perdido sobre os textos acumulados em cima da mesa. Já tomei o que lhe pertence. Percebo a necessidade de colocar os atrasos em dia. A necessidade de me colocar em dia. Literatura barata. Literatura de ponta. Literatura. Quem se importa para tanta erudição além de mim? Sua cobrança continua, amiga consciência. Incentivada por ações externas de terceiros. Alguns acusam-me de adiar o possível e enfrentar o impossível. Funciono na pressão. A disciplina se foi e continuo a procurá-la por entre as páginas dos livros novos e a poeira sob a cama ou até mesmo dentro da caixinha de chicletes. Os cafés esfriaram. Nem cigarros tenho para parecer esteticamente e literariamente mais interessante e revoltado do que pareço ser nesta reclusão provocada. Fico entre palavras desencontradas e cobranças tuas, consciência. Vai me perdoar o aspecto sinistro do banho quente em dias quentes. Prefiro no frio, este que me encolhe a alma. O cobertor parece gigantesco. Noite passada fiquei preso em ti. Impossibilitado de me localizar fisicamente, flutuando numa névoa desconhecida. O desespero me visitou. Medo mesmo. De ficar preso, inconsciente para sempre. Levantei-me sem o completo controle dos meus membros e ali, com o copinho de plástico do último iogurte de mel que continuava no chão do quarto, me batizei de alguma bebida alcoólica. Amarga, quente. Depois uns goles d'água. Fiquei no escuro, encolhido em um canto e ainda preso em seu mundo, amiga. Esperei o efeito do alucinógeno e logo depois a sonolência. Dormir ali, sentado. Acordei com frio alguns minutos depois, talvez. Cai na cama e esqueci. Agora você me cobra resultados, produtividades, poderes, conhecimentos e tantas coisas fúteis. Ou não. Poupe-me o aspecto sinistro de querer erradicá-la da minha existência. Preciso é tomar controle e evitar que me controle. E deixe-me perdido, assim como estou, em pensamentos e palavras desconexas. Assim uma hora acho a conexão entre elas, maldita amiga consciência. 

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