sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Olhos Dourados


A luz do dia invade o quarto através das grandes janelas. A persiana está aberta. As luzes natalinas ainda piscam do lado de fora, saltitantes e incansáveis. As palmeiras, que sustentam as cordas de luzes, reinam imponentes e suaves, balançando com o vento e anunciando um novo dia. Acordo com a luz que incomoda meus olhos. Permaneço abraçada a ele, que ainda dorme. Perdida em pensamentos, continuo  silenciosa, acompanhando o compasso da minha respiração. Estou nua. Ele também. Aos poucos relembro a noite passada, o amor, o suor, os suspiros, as mordidas e a exaustão. Assim dormimos: nos braços um do outro, envolvidos no presente. A pequena Torre Eiffel de vidro que decora o ambiente, com uma base giratória irradiante de luzes, ainda está acesa. Não me importo com o horário. Ele continua a dormir. Admiro a paisagem além da janela. Prédios com um céu azul e límpido ao fundo. Silêncio. Ele ameaça acordar ao perceber meus notáveis movimentos. Um movimento de olhos e percebo que está direcionado para mim, acostumando as pupilas à claridade. Ele sorri. Abraça-me. Beija-me com o mau-hálito comum das manhãs. Retribuo o carinho, transportando minha mente para lugares inexplorados e felizes. Aqueles lugares onde nada mais importa além do momento presente, o carinho, o cafuné, o olhar dourado provocado pelo sol matinal. Aos poucos acordamos, tomamos a coragem necessária para sair da cama e escovar os dentes, lavar o rosto, desanuviar a mente do sono ainda latente. Faço um café, desastrada e derramando pó sobre a pia. Um pedaço de bolo de laranja, uma fatia de pão com requeijão, um copo de iogurte e uma xícara pequenina de café despertar. Não temos mesa na cozinha, muito menos no espaço pequeno que chamamos de sala. Nessas horas, comemos em pé ao lado da pia ou em almofadas, perto da sacada do quarto. A paisagem da cidade nos inspira. Rimos de nossa simplicidade, felicidade. Não somos perfeitos. Pelo contrário, somos cheios de imperfeições que aprendemos a suportar um no outro. É o que acontece quando dois mundos diferentes se encontram, se unem e resolvem levar uma vida conjunta. Namorados, amantes, ficantes. As nomenclaturas não importam. O presente importa. Aquele olhar dourado me diz muito mais do que um título verbal. Confio no que posso sentir. Confio no que ele me transmite através de seu corpo, sempre com a temperatura mais elevada que o meu e pronto para esquentar minhas noites frias. Sinto frio com facilidade. Ainda estamos nús. Pretendemos ver um filme, apesar do dia convidativo de clima quente, úmido e agradável. Lembro de uma poesia, mas esqueço-a completamente um minuto depois. As risadas são sinceras. Ele levanta e pega um cigarro. Vê-lo fumar é um prazer. Detesto a fumaça e o cheiro, mas a sensibilidade com que ele executa cada tragada é de encher os olhos com poesia. É suave, sem pressa, aproveitando cada segundo daquele prazer destrutivo e calmante. A fumaça sai por seus lábios e narinas suavemente, sorrateira e livre, também sem pressa alguma. O tempo parece parar. O tempo tem se comportado dessa forma desde que nos conhecemos. Ele achou que nos conheceríamos da forma tradicional: parques, cafés, restaurantes, cinemas e outros lugares públicos. Entretanto, nos envolvemos de uma forma que não consigo definir ou descrever a intensidade e profundidade. Foi espontâneo, apesar de tudo. Tão envolvente e avassalador que provocou medo, insegurança, incerteza por toda a rapidez de sentimentos, momentos, trocas e concessões. Depois nos estabilizamos, o medo se foi. Ele me incentivou a continuar a escrever, incentivou a reunir todos os meus contos perdidos e procurar uma editora. Consegui publicar meu primeiro livro e caminho para o segundo, um misto de autobiografia com devaneios. Ainda não sei se publicável, mas tenho ímpeto de escrevê-lo. E chegarei ao fim. Do livro, claro. Talvez o termine durante a viagem de duas semanas que farei a trabalho. Londres. Uma inspiração e tanto para finalizar um livro de loucuras, devaneios e sinceridades. Talvez não tão sinceras, afinal tenho o poder de criar o que me vier à cabeça. É meu mundo, com minhas escolhas, minha decoração. É o egoísmo personalizado em palavras. É a arte de criar. No meu caso, um livro sem propósito maior do que ter pensamentos e momentos registrados. Cheio de aleatoriedades e sentimentos. Ou tentativas de transpor sentimentos em palavras. Enquanto vou tentando, tentando e tentando, permaneço nua, olhando a janela, com o amor ao lado e uma xícara de café vazia. Permaneço nua, mas repleta de ideias e amor. E olhos dourados.

1 comentários:

Gabi Pagliuca disse...

que lindo. ler isso me faz sentir uma vontade de amar e ser amada...

bom, por enquanto vou amando, até ele ou outro me amar de volta.


:')

beijos